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Terapia Cognitiva, Terapia Cognitivo-Comportamental e Terapia Comportamental
Ana Maria Martins Serra, PhD.
A Terapia Cognitiva, como um sistema de psicoterapia, emergiu na década
de 60, século XX. Aaron Beck, impulsionado por preocupações
teóricas, e emprestando da Psicologia acadêmica a metodologia científica,
conduziu estudos empíricos com a intenção de confirmar
princípios psicanalíticos, em particular o modelo psicanalítico
motivacional da depressão como agressão retroflexa do indivíduo
contra si, em uma tentativa de auto-punição. Seus estudos com
depressivos moderados e severos geraram resultados negativos, e, contrariando
suas expectativas, conduziram à desconfirmação do modelo
psicanalítico de depressão. Beck propôs um novo modelo,
o modelo cognitivo de depressão, o qual, evoluindo em seus aspectos teórico
e aplicado, resultou na proposição de um novo sistema de psicoterapia
- a Terapia Cognitiva.
A despeito de trajetos históricos próprios e independentes, a
Terapia Cognitiva tem sido freqüentemente identificada com a Terapia Comportamental,
e as denominações Terapia Cognitiva e Terapia Cognitivo-Comportamental,
especialmente no Brasil, têm sido empregadas intercambiavelmente. Da perspectiva
da Terapia Cognitiva, este texto enfatizará fatores específicos
de cada abordagem, bem como fatores de superposição, destacando
aspectos históricos interessantes e que convergiram para a emergência
de cada uma dessas abordagens em diferentes períodos e contextos.
Bases históricas da Terapia Cognitiva
Na década de 50, nos Estados Unidos, devido à emergência
das ciências cognitivas, o contexto já sinalizava uma transição
generalizada para a perspectiva cognitiva de processamento de informação,
com clínicos defendendo uma abordagem mais cognitiva aos transtornos
emocionais. Nessa época, observou-se uma convergência entre psicanalistas
e behavioristas com respeito à sua insatisfação com os
próprios modelos de depressão, respectivamente, o modelo psicanalítico
da raiva retroflexa e o modelo behaviorista do condicionamento operante. Clínicos
apontavam para a validade questionável desses modelos como modelos de
depressão clínica.
Nas décadas de 60 e 70, observou-se o afastamento da psicanálise
e do behaviorismo radical por vários de seus adeptos. Em 1962, Ellis,
propôs a Rational Emotive Therapy, a primeira psicoterapia contemporânea
com clara ênfase cognitiva. Behavioristas como Bandura (Princípios
de Modificação do Comportamento, 1969; Teoria da Aprendizagem
Social, 1971), Mahoney (Cognition and Behavior Modification, 1974)
e Meichenbaum (Cognitive Behavior Modification, 1977) publicaram importantes
obras, em que apontaram os processos cognitivos como cruciais na aquisição
e regulação do comportamento, bem como estratégias cognitivas
e comportamentais para intervenção sobre variáveis cognitivas.
Martin Seligman, na mesma época, propôs a Teoria do Desamparo Aprendido,
uma teoria essencialmente cognitiva, e suas revisões, que resultaram
na Teoria dos Estilos de Atribuição, como relevantes para processos
psicológicos na depressão.
Em 1977, é lançado o Journal of Cognitive Therapy and Research,
o primeiro periódico a tratar da Terapia Cognitiva. Em 1985, a palavra
"cognição" passa a ser aceita em publicações
da Association for the Advancement of Behavior Therapy (AABT). Em 1986
Beck é aceito como membro da mesma entidade. E em 1987, ou seja, apenas
dois anos após a AABT aceitar a inclusão da palavra "cognição"
em suas publicações, em uma pesquisa realizada entre membros da
AABT, 69% se identificaram como tendo uma orientação cognitivo-comportamental.
Estava, portanto, inaugurada a era cognitiva na psicoterapia, a partir de fatos
que convergiram de forma decisiva para a emergência de uma perspectiva
cognitiva, que se refletiu na proposição da Terapia Cognitiva
como um sistema de psicoterapia, baseado em modelos próprios de funcionamento
humano e de instalação e manutenção das psicopatologias.
Emergência da Terapia Cognitiva
Fundamentalmente, a influência mais importante, e a que deu origem à
Terapia Cognitiva, foram os experimentos e observações clínicas
do próprio Beck.
Na área de seus experimentos, Beck inicialmente explorou o modelo psicanalítico
da depressão como agressão retroflexa, através de estudos
de exploração do conteúdo dos sonhos e de manipulação
de humor e desempenho com depressivos. Contrariando o modelo psicanalítico,
Beck reuniu dados que apontaram para a depressão como refletindo simplesmente
padrões negativos de processamento de informação. Na área
de suas observações clínicas, Beck observou que, durante
a livre-associação, pacientes não relatavam um fluxo de
pensamentos automáticos, pré-conscientes, rápidos e específicos.
Investigando, notou que tais fluxos de pensamentos funcionavam como uma variável
mediacional entre a ideação do paciente e sua resposta emocional
e comportamental. Em contraposição ao modelo psicanalítico
motivacional da depressão, esses pensamentos expressavam uma negatividade,
ou pessimismo, geral do indivíduo contra si, o ambiente e o futuro.
Com base em suas observações clínicas e experimentais,
Beck propôs a teoria cognitiva da depressão. A negatividade geral
expressa pelos pacientes, segundo ele, não era um sintoma, mas desempenhava
uma função central na instalação e manutenção
da depressão. Depressivos sistematicamente distorciam a realidade, aplicando
um viés negativo em seu processamento de informação. Beck
aponta a cognição, e não a emoção, como o
fator essencial na depressão, conceituando-a, portanto, como um transtorno
de pensamento e não um transtorno emocional. E propõe a hipótese
de vulnerabilidade cognitiva, como a pedra fundamental do novo modelo de depressão,
e a noção de esquemas cognitivos.
Em 1967, Beck publicou Depressão: Causas e Tratamento (1967),
à qual se seguiu uma série contínua de publicações
expressivas como Terapia Cognitiva dos Transtornos Emocionais (1976),
na qual a terapia cognitiva já é apresentada como um novo sistema
de psicoterapia, Terapia Cognitiva da Depressão (1979), a obra
mais citada na literatura especializada, além de outras obras importantes,
algumas das quais recentes, em que Beck e seus colaboradores desenvolvem e expandem
os limites da Terapia Cognitiva.
Terapias Comportamental e Cognitivo-Comportamental
Na primeira metade do século XX, a psicanálise, em suas várias
orientações, dominava o campo da psicoterapia. No entanto, ao
redor dos anos 50, cientistas começaram a questionar os fundamentos teóricos
e a eficácia da psicanálise, enquanto que, ao mesmo tempo, a teoria
da aprendizagem e dos processos de condicionamento, e a abordagem comportamental
derivada delas, começaram a influenciar a pesquisa e a clínica
psicológicas.
Pavlov, o cientista que primeiro descreveu e analisou os processos de condicionamento,
expressou seu interesse em suas possíveis aplicações clínicas.
Nos anos pós-guerra, a teoria da aprendizagem, proposta por Clark Hull,
mostrou-se a orientação dominante na maioria dos departamentos
de Psicologia, especialmente nos Estados Unidos. Em seguida, porém, encontrando
obstáculos teóricos que resultaram em seu enfraquecimento e descrédito,
cedeu lugar às propostas de B.F.Skinner.
Os primeiros teóricos-clínicos, nesse estágio precoce,
acreditavam firmemente que a terapia comportamental deveria continuar intimamente
associada ao behaviorismo dos anos 50 e 60. Os princípios fundamentais
do behaviorismo, que desafiaram a psicanálise ortodoxa, podiam
ser assim resumidos: a mente não representava um objeto legítimo
de estudo científico; o problema do paciente se limitava ao seu comportamento
observável, contra a necessidade de se invocar processos não-observáveis,
e não-testáveis, como os processos inconscientes; o foco da avaliação
e tratamento deveria ser dirigido ao que poderia ser observado, operacionalizado
e medido; na modificação do comportamento, os fatores importantes
eram os que concorriam para a manutenção do problema do paciente,
ao invés de sua suposta origem; e, finalmente, o método científico
provia um enquadre legítimo para o desenvolvimento de uma teoria e uma
prática clínica, em que a compreensão e a aplicação
de princípios teóricos e terapêuticos avançaria melhor
através da observação empírica sistemática.
Entretanto, o desenvolvimento da terapia comportamental na Inglaterra e nos
Estados Unidos seguiu trajetos paralelos e distintos, até que, com o
tempo, essas distinções se atenuaram.
Corrente britânica
Na Inglaterra, nos anos 50, Hans Eysenck, que figura entre os principais contribuintes
para o desenvolvimento da terapia comportamental britânica, e um grupo
de notáveis membros do Instituto de Psiquiatria do Maudsley Hospital,
sob a direção de Aubrey Lewis, discutiam a viabilidade de uma
nova forma de psicoterapia baseada na teoria do condicionamento.
Após uma visita aos Estados Unidos, e pouco impressionado com a psicologia
acadêmica e clínica americana, Eysenck desenvolveu parâmetros
para a psicologia na Inglaterra: as leis estabelecidas pela psicologia acadêmica
deveriam ser aplicadas na clínica; a psicologia clínica deveria
constituir uma profissão independente; como a psicoterapia e os testes
projetivos não se originaram a partir de teorias ou conhecimentos da
psicologia acadêmica, estes não deveriam ser empregados na psicologia
clínica; a psicologia clínica ou psicoterapia deveria basear-se
em conhecimento, métodos e desenvolvimentos gerados pela psicologia acadêmica,
delineados em seu popular livro Usos e Abusos da Psicologia (1953), concluíndo
que os processos de condicionamento ofereciam a melhor fundação
para a nova abordagem.
Após a guerra, Eysenck, encorajado por Lewis, fundou um programa acadêmico
para psicólogos clínicos, tendo Monte Shapiro como o primeiro
diretor da seção de treinamento clínico, dando origem ao
Departamento de Psicologia do Instituto de Psiquiatria do Maudsley, afiliado
à Universidade de Londres. Os casos conduzidos e estudados eram, em sua
maioria, transtornos de ansiedade, especialmente agorafobia, resultando na publicação
de estudos de caso. No entanto, a essa época, tais esforços iniciais
em nada ainda se assemelhavam a uma nova forma de psicoterapia.
À mesma época, 1954, em Johanesburgo, Joseph Wolpe publicou seus
primeiros resultados com uma nova técnica de redução de
ansiedade, a dessensibilização sistemática, uma técnica
de condicionamento, mas que claramente envolvia variáveis cognitivas,
ao recorrer a ensaios graduais imaginados. Wolpe e Eysenck partilhavam algumas
importantes visões: ambos utilizavam os princípios pavlovianos,
ambos consideravam os problemas psicológicos como resultantes de experiências
de condicionamento aversivo ou condicionamento deficiente, e ambos acreditavam
na aplicabilidade de procedimentos de condicionamento com finalidades terapêuticas
para pacientes portadores dos então denominados transtornos neuróticos.
O trabalho de Wolpe representava a aplicação clínica do
enquadre teórico que Eysenck, que jamais se envolveu com a prática
clínica, vinha desenvolvendo. Além desses fatores em comum, ambos
partilhavam ainda séria resistência à inclusão, ao
redor de 1980, de conceitos e técnicas cognitivos na terapia comportamental,
a despeito, curiosamente, da presença inequívoca de variáveis
cognitivas na técnica da dessensibilização sistemática
desenvolvida por Wolpe.
A fundamentação do programa desenvolvido por Eysenck e colegas
foi posteriormente explicada em um livro, em co-autoria com Rachman, intitulado
"As Causas e Curas das Neuroses: Introdução à Terapia
Comportamental Moderna Baseada na Teoria da Aprendizagem e nos Princípios
de Condicionamento" (1965). Eysenck foi sucedido na direção
do departamento por Jeffrey Gray, ex-Decano no Departamento de Psicologia Experimental
da Universidade de Oxford. Jeffrey, foi, por sua vez, substituído pela
dupla David Clark e Paul Salkovskis, que figuram entre os mais brilhantes pesquisadores
em terapia cognitiva no cenário mundial, e os quais ocupam, no Instituto
de Psiquiatria do Maudsley Hospital, postos anteriormente ocupados pelas figuras
lendárias que os precederam, definitivamente impondo no Instituto a terapia
cognitiva, em substituição à predecessora terapia comportamental.
À mesma época, em 2000, um importante marco no desenvolvimento
da terapia comportamental britânica se encerrou no mesmo Instituto, com
a aposentadoria de Isaac Marks.
Nos Estados Unidos
Após a visita de Eysenck aos Estados Unidos, e enquanto ele tentava
fundar um departamento acadêmico de psicologia clínica na Inglaterra,
nos Estados Unidos o modelo mais proeminente na psicologia acadêmica era
o modelo de Boulder, Colorado, que insistia em que o treinamento de psicólogos
clínicos deveria fundar-se nos departamentos da psicologia acadêmica,
com sólida formação em psicologia em nível de graduação
e um componente significativo em pesquisa em nível de doutorado. Entretanto,
em contraposição, observava-se na clínica uma tendência
à aceitação não crítica de uma variedade
de formas de psicoterapia, praticadas na época, e o uso indiscriminado
de instrumentos psicométricos, particularmente os testes projetivos,
como o Rorschach.
Ao contrário do behaviorismo britânico, que estava largamente
fundado nos conceitos de Pavlov, Watson e Hull, e atuava nos contextos clínicos
com pacientes neuróticos, o behaviorismo americano apoiava-se
principalmente nas idéias de Skinner e seus seguidores, os quais tentavam
replicar em pacientes psiquiátricos os efeitos do condicionamento obtidos
com animais em laboratórios, isto é, a modelação
de comportamento através do uso de técnicas de condicionamento
operante. Essa visão influenciou fortemente os conceitos de transtorno
psiquiátrico e comportamento anormal, originando o modelo médico
de problemas psicológicos. Os problemas psiquiátricos, de pacientes
severos e crônicos, foram redefinidos como problemas de comportamento,
cuja solução dependia de um programa de correção
através do condicionamento operante.
As pesquisas conduzidas foram de grande valor, mas não produziram os
resultados esperados. Além desse, dois outros importantes fatores se
interpuseram como graves obstáculos: primeiro, o sucesso da terapia comportamental
no tratamento dos transtornos de ansiedade não foi replicado no tratamento
dos transtornos depressivos; e, segundo, ao mesmo tempo em que a teoria da aprendizagem
de Hull caiu em descrédito, a teoria do condicionamento do medo, que
representou um papel fundamental na proposição inicial da terapia
comportamental, dava claros sinais da necessidade de revisão.
Contudo, a terapia comportamental contribuiu decisivamente para o desenvolvimento
da Psicologia Clínica e resultou em uma mudança importante na
forma como são avaliadas as abordagens psicoterápicas, especialmente
a expectativa generalizada de psicoterapias baseadas em evidência, através
de estudos controlados de eficácia.
Terapia Cognitivo-Comportamental
A terapia comportamental mostrou-se promissora, especialmente no tratamento
de fobias e transtornos obsessivo-compulsivos. Entretanto, muito cedo suas limitações
teóricas e aplicadas se tornaram claras, especialmente com relação
à limitada gama de transtornos para os quais se mostrava eficaz. Nos
anos 60, as teorias dominantes em Psicologia mudaram seu foco do poder do ambiente
sobre o indivíduo para os processos racionais, como fonte de direção
das ações humanas, refletidos nas expectativas, decisões,
escolhas e controle do indivíduo, prenunciando os efeitos da revolução
cognitiva sobre a clínica, através da emergência das orientações
cognitivas.
Em vista do reduzido sucesso no tratamento da depressão por terapeutas
comportamentais, e a despeito da resistência da terapia comportamental
a conceitos e técnicas cognitivos, quando Beck (1970) declarou que: "embora
auto-relatos de experiências privadas não sejam verificáveis
por outros observadores, esses dados introspectivos provêm uma riqueza
de hipóteses testáveis", ele encontrou uma audiência
interessada. Além disso, havia ainda o fato de que ele estava articulando
preocupações de um número crescente de clínicos,
que advogavam a atenção dos behavioristas para uma fonte valiosa
de dados e compreensão clínica: a cognição. Re-assegurados
por características do modelo cognitivo proposto por Beck, que incluía
tarefas comportamentais, sessões estruturadas, prazo limitado de tratamento,
comprovação científica, e registro diário de experiências
maladaptativas, etc., os escritos de Beck encontraram surpreendente interesse
por parte dos comportamentais. Superando suas resistências, os comportamentais
passaram a incluir técnicas cognitivas em seus programas de tratamento,
ao mesmo tempo em que reconhecidos behavioristas passaram a tomar a cognição
como um construto mediacional entre o ambiente e o comportamento.
No entanto, outra fonte de desconfiança para os behavioristas,
incluindo o próprio Eysenck, referia-se especialmente ao fato de que
a terapia cognitiva desenvolveu-se independente da, ou em paralelo à,
Psicologia Cognitiva como ciência básica, violando a máxima
behaviorista de que a ciência psicológica deveria fundamentar
a Psicologia Clínica. Mas o sucesso da Terapia Cognitiva no tratamento
da depressão concorreu para neutralizar essas resistências.
Curiosamente, à medida que conceitos cognitivos eram incorporados à
prática comportamental, dando dessa forma origem às terapias cognitivo-comportamentais,
notou-se que além da superioridade em eficácia no tratamento da
depressão, as técnicas cognitivas demonstraram eventualmente também
sua superioridade no tratamento dos transtornos de ansiedade, o campo onde a
terapia comportamental havia alcançado sucesso incontestável.
A introdução de conceitos e técnicas cognitivos na terapia
comportamental coincidiu com a queda da teoria da aprendizagem de Hull, que
provia a fundação teórica da terapia comportamental. Por
outro lado, a absorção de conceitos cognitivos possibilitava,
entre outras vantagens, maior valor explanatório, maior abrangência
na aplicação da terapia comportamental, especificidade mais acurada,
e a possibilidade de ênfase ao conteúdo psicológico, por
exemplo, ao especificar o conteúdo cognitivo dos transtornos de pânico.
Essas vantagens acabaram por garantir a incorporação de técnicas
e conceitos cognitivos à terapia comportamental, resultando na consagração
da nova orientação, a terapia cognitivo-comportamental, entre
os comportamentalistas. Autores (ex. Rachman, 1997) referem-se à terapia
cognitivo-comportamental como uma forma enriquecida e expandida de terapia comportamental.
Características compartilhadas?
A pergunta relativa a heranças históricas compartilhadas entre
as três abordagens foi abordada acima. Resta apenas analisar a existência
ou não de pontos comuns entre as três abordagens, da perspectiva
de suas proposições teóricas e aplicadas.
De uma perspectiva ontológica, as terapias cognitiva e comportamental
diferem radicalmente em sua visão de homem. Do ponto de vista filosófico,
o modelo cognitivo, baseado em esquemas como um modelo de funcionamento humano,
reconhece a influência do observador, e de suas hipóteses e expectativas,
sobre o processo da observação. O modelo comportamental, por outro
lado, na sua ânsia de rigor metodológico, ou propõe reduzir
o objeto observado a objeto observável, ou propõe ingenuamente
que a observação pura, na qual o observador está livre
de hipóteses, é possível, quando, segundo Popper, isso
configura apenas um mito filosófico. O reconhecido filósofo Karl
Popper, defensor do racionalismo crítico, influenciou os behavioristas
nos anos 50, argumentando estar a psicanálise fora da ciência por
não ser passível de falsificação. Da perspectiva
epistemológica, a terapia cognitiva propõe que, por serem refutáveis,
as hipóteses são candidatas ao status de científicas, adotando
uma postura equivalente ao racionalismo crítico. Por outro lado, o behaviorismo
sempre se declarou como adepto do positivismo lógico, com sua ênfase
na necessidade de verificação direta, até um relativo afrouxamento,
ao admitir a ação, sobre a variável dependente, das variáveis
intervenientes, o que coincidiu com a popularização, nos meios
científicos, do método hipotético-dedutivo. Este, adotado
pelo cognitivismo, permitiu a investigação da cognição
não observável, com base na proposição, fundamental
ao modelo, dos processos cognitivos como variáveis mediacionais entre
o ambiente e as respostas emocionais e comportamentais do indivíduo,
estas constituindo as consequências observáveis.
Outra diferença marcante, aliás melhor referida como incompatibilidade
filosófica, refere-se ao conceito de cognição, que para
o behaviorista constitui um comportamento encoberto e, para o cognitivista,
constitui um evento mental. Para este, está explícita a noção
de subordinação das emoções e comportamentos às
cognições, refletindo uma postura construtivista realista, visão
cognitiva que frontalmente colide com o modelo behaviorista de comportamento
humano. Para ilustrar essa diferença fundamental, tomemos o exemplo dos
experimentos comportamentais, técnica largamente utilizada em ambas as
abordagens, mas com finalidades que expressam claramente suas diferenças;
como declara Beck (1979): "para o terapeuta comportamental, a modificação
do comportamento é um fim em si mesmo; para o terapeuta cognitivo, é
um meio para se atingir um fim - isto é, a mudança cognitiva".
E o que as duas abordagens têm em comum? Devido à seqüência
histórica, apenas a terapia cognitiva, em sua proposição,
poderia haver "emprestado" algo de sua predecessora, a terapia comportamental.
A despeito das diferenças discutidas, e além das influências
que a terapia cognitiva sofreu da experiência psicanalítica anterior
de Beck, da fenomenologia, da teoria dos construtos pessoais e da terapia racional-emotiva,
a terapia comportamental também ofereceu importantes contribuições,
especialmente nos seguintes aspectos: ênfase ao uso do método científico;
importância aos fatores de manutenção dos transtornos ao
invés dos fatores de origem; ênfase a elementos terapêuticos,
como estrutura das sessões e do processo clínico, definição
de metas terapêuticas, tratamento de curto prazo, e a consideração
de mudanças comportamentais como um meio importante para se alcançar
mudanças cognitivas.
Quanto à Terapia cognitivo-comportamental, esta se situa em uma posição
intermediária confortável entre as duas abordagens, porém
com certo grau de liberdade conferido aos seus praticantes. Verificam-se dois
grandes grupos. Primeiro, aqueles anteriormente treinados como terapeutas comportamentais,
que tendem a manter-se vinculados ao modelo comportamental, apenas adicionando
a este princípios e técnicas cognitivos, porém com o objetivo
primordial de alcançar mudanças comportamentais. Para esses, a
cognição ainda é vista como um comportamento encoberto.
Segundo, aqueles treinados como terapeutas cognitivos, e que, adotando um modelo
cognitivo, utilizam-se de técnicas comportamentais, porém com
a finalidade explícita de obter mudanças cognitivas.
O primeiro grupo mostra-se mais numeroso no Brasil, devido principalmente ao
caráter recente da terapia cognitiva entre nós e à escassez
de centros autorizados de treinamento nessa abordagem. O segundo grupo, integrado
por profissionais treinados como terapeutas cognitivos, representa a maioria
dos auto-denominados terapeutas cognitivo-comportamentais no exterior, especialmente
nos Estados Unidos, Inglaterra e outros países europeus. No exterior,
o grupo de terapeutas cognitivo-comportamentais, anteriormente treinados como
comportamentais e que permanecem vinculados ao modelo comportamental, é
bem menos numeroso.
A razão principal para essa distribuição de terapeutas
cognitivo-comportamentais com clara ênfase cognitiva ou comportamental,
sem dúvida, refere-se ao fato de que a terapia cognitiva de Beck representa
hoje a abordagem melhor validada entre todas as formas disponíveis de
terapia psicológica, graças à sua ênfase em pesquisa
empírica, à solidez de sua base teórica, e à coerência
entre, de um lado, o seu modelo de instalação e manutenção
das psicopatologias e, de outro, o seu modelo aplicado.
Conclusão
Faz-se evidente que a crença, comum especialmente no Brasil, de que
a terapia cognitiva originou-se da terapia comportamental, constituindo uma
forma de neo-behaviorismo, não encontra fundamentação
na seqüência histórica de eventos que confluíram para
o desenvolvimento independente de ambas. Em 1994, Hans Eysenck, cuja sala ficava
ao lado da minha no Departamento de Psicologia do Instituto de Psiquiatria,
expressou da seguinte forma sua opinião a respeito da possível
origem comportamental da terapia cognitiva: "a terapia cognitiva tem pouco
em comum com a terapia comportamental. Beck foi, na realidade, um psicanalista
redimido que foi sábio em abandonar a parafernália do pensamento
psicanalítico e adotar a metodologia científica" (comunicação
pessoal, 1994). E, nas palavras de David Goldberg: "Beck tem a mesma relação
com a psicanálise que Gorbachev tem com o comunismo. Justamente como
Gorbachev terminou com o comunismo sem sangue (...), prometendo que tudo o que
estava tentando fazer era reformá-lo, assim também Tim Beck desfechou
um golpe profundamente subversivo na psicanálise, enquanto nos assegurava
de que tudo o que ele estava tentando fazer era expandir as fronteiras da psicoterapia"
(comunicação pessoal a P. Salkovskis, 1995).
Preparar este artigo, relembrando fatos e figuras lendárias, leva-nos
inevitavelmente a observar que a sequência de fatos históricos
de grande significado explicam o contexto atual das psicoterapias e nos inspiram
a reverenciar os grandes mestres, alguns dos quais já se foram e outros
que ainda estão produzindo. Estas figuras, através de sua engenhosidade
e energia notáveis, legaram-nos uma fundação segura e uma
fonte inesgotável de direções, nas quais as psicoterapias
surgidas após se apoiaram. Seus exemplos servem como fonte de inspiração
na definição e materialização de novas idéias,
especialmente com relação ao estudo da associação
entre cognições e emoções, com ênfase à
eventual criação de uma teoria de processamento cognitivo-emocional,
bem como com relação ao fortalecimento da cooperação
entre pesquisa e clínica, uma via de mão dupla que mostra sinais
de consolidação.
Sugestões de Leitura:
Beck, A.T., Rush, Shaw & Emery (1996) Terapia Cognitiva da Depressão,
Porto Alegre: Ed. Artes Medicas.
Castañon, G.A. (2005) "O surgimento do Racionalismo Crítico
de Karl Popper e sua Influência na Revolução Cognitiva".
(Em preparação.)
Clark, D.A., Beck, A.T. (1999) Scientific Foundations of Cognitive Theory
and Therapy of Depression, New York: Wiley.
Salkovskis, P. (Ed.) (2005) Fronteiras da Terapia Cognitiva. Organizadora
da Ed. Brasileira A.M. Serra. São Paulo: Editora Casa do Psicólogo.
Serra, A. M. (2004) Introdução à Teoria e Prática
da Terapia Cognitiva (Áudio em CD). São Paulo: ITC-Instituto
de Terapia Cognitiva.
Serra, A.M. (2007) (Org) Terapia Cognitiva e Construção do
Pensamento. Revista Psique, Ed. Especial, Abril, 2007. São Paulo:
Ed. Escala.
Ana Maria Martins Serra, PhD
Instituto de Terapia Cognitiva, São Paulo
e Campinas, SP
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