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Terapia Cognitiva e Auto-Conceito em Crianças e Adolescentes
Ana Maria Martins Serra, PhD.
A relevância do desenvolvimento de um auto-conceito positivo para a experiência
de realização e bem estar em crianças e adolescentes
E como os adultos podem contribuir
O impacto dos comportamentos de uma pessoa sobre o seu ambiente social é
grandemente responsável pelo desenvolvimento de seu auto-conceito. Um
auto-conceito positivo, desenvolvido desde muito cedo, é essencial para
a adaptação e ajustamento do indivíduo e para a sua experiência
de realização e bem estar. Além disso, adultos podem contribuir
de formas importantes para o desenvolvimento de um auto-conceito positivo em
crianças e adolescentes sob seus cuidados e influência.
Focalizemos dois eixos principais: como se desenvolve o auto-conceito em crianças
e adolescentes e como os adultos podem contribuir positivamente.
Primeiramente, o modelo cognitivo de funcionamento humano propõe que
experiências relevantes precoces proporcionam a base para o desenvolvimento
de esquemas cognitivos, e suas crenças correspondentes, sobre o self,
o mundo e o futuro. Nesse sentido, esquemas são definidos como superestruturas
cognitivas que nos possibilitam inconscientemente processar estímulos
internos e externos, transformando elementos sensoriais em nossas representações
do mundo real. Nossas representações ou interpretações
de eventos e situações, por sua vez, emergem ao nível pré-consciente
em forma de pensamentos automáticos, cujos conteúdos largamente
determinarão nossas respostas emocionais e comportamentais. E finalmente,
nossos comportamentos, mais especialmente em função de seu impacto
sobre o ambiente social, determinarão as bases de nosso auto-conceito.
Segundo esse modelo, a relevância de nossas experiências precoces
na geração de nossos esquemas e crenças, de nossas emoções
e comportamentos e, em ultima análise, de nosso auto conceito, é
evidente e deve ser enfatizada.
Em segundo lugar, destacamos que adultos - sejam eles pais, educadores ou cuidadores
- devem usar tudo o que dizem e falam para desenvolver em crianças e
adolescentes, sob seus cuidados, esquemas funcionais, particularmente em três
áreas principais: competência (cuja crença pode ser, por
exemplo, "sou capaz intelectualmente"), adequação social
("sou adequado, legal, atraente, socialmente valorizado) e estima ("sou
amado" ou "reúno os atributos para ser amado pelas pessoas").
Da perspectiva da teoria dos estilos de atribuição, proposta por
Martin Seligman e colaboradores, há formas através das quais adultos
podem efetivamente encorajar o desenvolvimento de esquemas funcionais em crianças
e adolescentes; ou, em outras palavras, adultos podem favorecer formas particulares
de abordar crianças e adolescentes com a finalidade de proporcionar-lhes
as ferramentas conceituais e práticas para que, no presente e no futuro,
eles tenham um auto-conceito positivo e sejam capazes de experienciar gratificação.
Conceitos adicionais, como compaixão e solidariedade, podem ser igualmente
encorajados, desde que tais conceitos podem contribuir para maior gratificação
em seus relacionamentos sociais e afetivos, através de toda a vida.
Um programa de intervenção foi aplicado no contexto de uma escola
brasileira, com alunos do 3º colegial que estavam se preparando para os
exames vestibulares, intitulado "Como lidar com as emoções
em ano de Vestibular". Além dos alunos, o estudo envolveu também
professores, coordenadores, e pais, e foi conduzido adotando como enquadre teórico
a teoria dos estilos de atribuição. O programa teve excelente
resultados, no sentido de avanços dos alunos participantes, em aspectos
acadêmicos e pessoais, bem como favorecendo grandemente os adultos envolvidos.
Os alunos que participaram do estudo tiveram um índice de aprovação
nos vestibulares 34% superior aos alunos do ano anterior. Destacamos a atuação,
neste contexto, do conceito de "profecia auto-realizante", que pode
ser resumida conforme segue: quando prevemos um sucesso - por exemplo, no vestibular
- essa "profecia" influenciará positivamente nossas emoções
- por exemplo, tranqüilidade e segurança - as quais, por sua vez,
contribuirão para a materialização de toda a nossa competência
em nosso desempenho. Entretanto, ao fazermos uma "profecia" negativa,
esta resultará em um estado emocional adverso, que influenciará
negativamente a expressão máxima de nossa competência.
Em resumo, devemos enfatizar o desenvolvimento de um auto-conceito positivo
em crianças e adolescentes. No caso de falhas de processamento cognitivo,
o conseguiremos através da re-estruturação cognitiva; no
caso de reais limitações ou falhas, através do desenvolvimento
de habilidades para a resolução de problemas. A auto-estima, ou
seja, o gostar de si mesmo, será uma conseqüência natural
de um auto-conceito positivo. Ao contrário, porém, não
pode haver auto-estima em associação a um auto-conceito negativo.
Portanto, o auto-conceito é o aspecto chave em que devemos concentrar
nossas ações e intervenções com crianças
e adolescentes.
Ana Maria Martins Serra, PhD
Instituto de Terapia Cognitiva, São Paulo
e Campinas, SP
Atenção: Curso
de Especialização em Terapia Cognitiva Aplicada a Crianças
e Adolescentes, nova área de concentração do Curso
de Especialização em Terapia Cognitiva, oferecido pelo ITC - Instituto
de Terapia Cognitiva) e credenciado pelo CFP-Conselho Federal de Psicologia,
habilitando o concluinte à obtenção do Título de
Especialista em Psicologia Clínica.
Em 2011, Conferências Internacionais sobre Terapia Cognitiva com Crianças
e Adolescentes: com os Drs. Mark Reinecke, da Northwestern University (11 a
13 de março de 2011) e Philip Kendall, da Temple University (16 e 17
de setembro de 2011), reconhecidos internacionalmente como os especialistas
em TC com crianças e adolescentes.
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